4 de setembro de 2013

A dor de romper a inocência


Que tempos deliciosos foram da estação da primavera da inocência, em seu sentido mais puro, do olhar cristalino, do toque agapal, dos pensamentos de céu azul anil, de pegadas livres sem medo de rasteiras, de abraços apertados e confortantes, de mãos carinhosas e amigas, rostos que jamais revelavam perigo, intenções altruístas, desejos abertos e palavras sem segundas intenções. O período da inocência nos faz enxergar a vida com lentes claras, com noites estreladas e dias ensolarados. A vida era mais leve, mais saborosa, mais adocicada, com mais sorrisos, com menos rugas, rancores ou faces fechadas. Que bons tempos...
Mas um dia como qualquer outro, sem prévio aviso, sem envio de correspondência ou de chegada, ouve-se um bater na porta de forma firme que ecoa dentro, o girar da maçaneta decidido como alguém preste a entrar, o ranger da dobradiça amalgamada ao ferrugem, os passos que se aproximam sem dizer quem é, vai entrando, perscrutando o interior outrora velado, chega com suas bagagens, conhecimento de  gente grande e vivido, com artefatos de malícia, acende o pavio da lamparina resplandecendo uma meia luz, que ao invés de refletir segurança expressa medo, pois seu olhar espreita não os antigos móveis da nossa residência, mas nosso ser, despertando sentimentos contraditórios, acionando o mecanismo de auto defesa, trazendo o peso e subtraindo a leveza, estreitando as ruas empoeiradas que outrora eram largas nas quais brincávamos sem preocupação. Depois que entrou, levou nossa inocência, nossa infância, nossa maneira descontraída e despreocupada de viver. Deixou-nos a consciência sagas, a dúvida, a desconfiança e a insegurança.
Percebemos depois de um tempo pensando assentados na varanda da velha casa, que diferente do que pensávamos, viver é isso, ter que encarar a realidade da dor, da aflição, dos dissabores, das frustrações, das decepções. Ver o que não gostaríamos, sentir o que não imaginávamos, perder o que achávamos que tínhamos e até mesmo o que pensávamos possuir. E que para se relacionar de verdade, na vida real, diferente do que víamos na TV preto e brando do pai, é estar disposto a crescer, deixar os brinquedos de criança, parar de brincar na rua porque ali passa carro, conviver com as contradições e variáveis do ser humano, enxergar as coisas não somente com olhar angelical, mas as vezes maldoso. É entender que o amor romântico é lindo, perfeito, esculpido a mão, mas acontece somente nos bastidores das novelas que víamos na antiga companhia da vó, frente a televisão. Pois fora da telinta, estamos sujeitos a realidade dura, crua e desnuda da verdade, sem jogos de câmaras, cortes ou produções cinematográficas.
Quando a inocência vai embora leva consigo várias coisas boas, mas deixa boas lembranças que devem ser guardadas, mas jamais incorporadas no presente. É preciso ter a capacidade de deixar lembranças na memória e viver o presente como realidade. Enxergar a si mesmo como adulto,  deixar de viver no mundo da fantasia, encarar a vida de gente grande, enfrentar as ondas de frente, usar colete salva vidas se preciso, mas lutar para não perder nunca a ternura de viver. Pois o outro, do outro lado, busca o mesmo que você, se debate com os mesmo temas e enfrenta os mesmos dilemas, e só aceitará permanecer se perceber que mesmo diante dos sofrimentos, da dor que lateja, das feridas abertas, dos choros calados, ainda assim, você consegue manter uma cadência branda, suave e serena, ao ponto de convidá-lo para caminhar em busca do amor.



Agora sem as lentes da inocência, não somos menos felizes, mas felizes de forma diferente. Não acreditamos em tudo, mas possuímos fundamento para nossa crença. Não amamos a todos, mas há quem desejamos, queremos e sabemos nos entregar. Não somos mais meninos e meninas levados pelo homem mau a um canto perigoso movidos pela oferta de um pacote de balas.  Mas nos deixamos levar pelos braços de quem amamos, nos quais desejamos ser acarinhados pelo resto da vida. Não enxergamos com as mesmas lentes. Mas sabe de uma coisa? - acredito que enxergamos mais, mais profundamente e amplamente. A inocência partiu sem dizer adeus, e pelo jeito, nunca mais voltará. Sentirei sua falta, mas hoje aprendi viver com sua ausência! 

Ivan Tadeu Panicio Junior - Reflexões

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